... O TEMPO PASOU NA JANELA E SÓ CAROLINA NÃO VIU.

- Se alguém ama uma flor da qual só existe um exemplar em milhões e milhões de estrelas, isso basta para que seja feliz quando a contempla. Ele pensa: "Minha flor está lá, nalgum lugar..." Mas se o carneiro come a flor, é para ele, bruscamente, como se todas as estrelas se apagassem!... "A flor que tu amas não está em perigo... Vou desenhar uma pequena mordaça para o carneiro... Uma armadura para a flor..."

Toda vez que penso em Ritinha, eu me lembro de Carolina do Chico. O primeiro beijo de Ritinha foi aos treze. Depois desse, mais nenhum. Ritinha cresceu sendo a mais bonita. Ritinha se tornou a mais desinteressante com o tempo. Ritinha sempre foi uma pessoa incrivelmente maravilhosa e com uma vida que muitos gostariam de ter, menos em relação aos não-amores. Ritinha sempre foi orgulhosa o suficiente para ter pena de si mesma por não ser desejada. Antes mesmo disso acontecer, ela julgava e condenava todos que se aproximavam, se colocando num pedestal, inatingível para qualquer um que viesse a pensar em rejeitá-la. Para Ritinha, era certo que aconteceria já que não se encaixava no apetite de ninguém... mas ela não sabia disso. Ritinha é igual a Rosa de Saint-Exupéry, protejida dentro de uma redoma de vidro, onde somente ela sente o perfume que exala. Mas nenhum Pequeno Principe a colou lá... foi ela mesma. Ritinha tem 30 anos. Ritinha é uma arquiteta de sucesso. Mais amigos do que tem Ritinha, ninguém tem. Ritinha ainda é virgem. Ritinha ainda so foi beijada aos treze. Ritinha nunca se apaixonou. Ritinha não sabe o que é o amor de um homem. Ritinha começa a perceber que ficou viciada nessa situação. Ritinha nunca pensou nisso. Ritinha deixou o tempo passar e não fez nada para mudar. Ritinha agora percebe Ritinha. Está nas mãos de Ritinha dar o primeiro passo para mudar tudo. Ritinha precisa agir rápido... se não, sempre que eu ouvir Carolina do Chico, vou me lembrar de Ritinha.

Carolina, nos seus olhos fundosguarda tanta dor, a dor de todo esse mundo.
Eu já lhe avisei que não vai dar.
Seu pranto não vai nada ajudar.
Eu já convidei para dançar.
É hora, já sei, de aproveitar.
Lá fora, amor, uma rosa nasceu,todo mundo sambou, uma estrela caiu.
Eu bem que mostrei sorrindo.
Pela janela "- Ói que lindo!" e só Carolina não viu.
Carolina,

nos seus olhos tristesguarda tanto amor, amor que já não existe.
Eu bem que avisei, "- vai acabar!".
De tudo lhe dei para aceitar.
Mil versos cantei para agradar.
Agora não sei como explicar...
Lá fora, amor, uma rosa morreu,uma festa acabou, nosso barco partiu.
Eu bem que mostrei a ela.
O tempo passou na janela e só Carolina não viu!
Chico Buarque

- É claro que eu te amo - disse-lhe a flor.
- Foi por minha culpa que não soubeste de nada. Isso não tem importância. Foste tão tolo quanto eu. Trata de ser feliz... Mas pode deixar em paz a redoma. Não preciso mais dela.
- Mas o vento...
- Não estou assim tão resfriada... O ar fresco da noite me fará bem. Eu sou uma flor.
- Mas e os bichos...
- É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas. Dizem que são tão belas. Do contrário, quem virá visitar-me? Tu estarás longe... Quanto aos bichos grandes, não tenho medo deles. Eu tenho as minhas garras.
E ela mostrava ingenuamente seus quatro espinhos.

COMENTÁRIO
[Hypolito Patzdorf] Como é bom iniciar o dia com textos tão verdadeiros. Carlinha estou me viciando no teu blog ele é muito show. E este texto de Ritinha então...me veio lágrima nos olhos. Vc está com uma produção ótima, não pare!20/05/2004 08:08

Comentários